Em Atena, Mel Lisboa dá vida a uma personagem intensa e multifacetada, que transita entre a rotina aparentemente comum e a identidade de uma justiceira marcada por traumas profundos.
Nesta entrevista para o E-Pipoca, Mel fala sobre o desafio de construir essa dualidade complexa, a imersão necessária para abordar temas delicados como abuso e violência, e como o ambiente de Gramado influenciou a atmosfera do filme.
Ela também comenta sobre os momentos mais difíceis das filmagens, a linha tênue entre justiça e vingança e como sua experiência no teatro ajudou a moldar sua atuação no cinema e na TV. Um depoimento sincero e impactante sobre um projeto que vai muito além da tela.

A vida complexa de Atena
Atena é uma personagem complexa, que transita entre a vida “normal” e a de justiceira. Qual foi o maior desafio em construir essa dualidade e como você se preparou para vivenciar as diferentes facetas dela?
“Eu acho que o maior desafio é construir a dualidade. Ela vive em dualidades, né? A justiceira e a pessoa comum. Mas também a dualidade interna dela, uma personagem que é, ao mesmo tempo, determinada, endurecida pela vida, mas também muito frágil, muito vulnerável, por conta dos traumas que sofreu e da luta à qual ela se dispôs a enfrentar”.
“Acho que essa é a dificuldade mesmo na construção da personagem: a complexidade dela. E foi isso que me interessou, além da figura alegórica da justiceira. Não é tão fácil ver esse tipo de personagem no cinema, especialmente personagens femininas, né? Existem algumas, inclusive todas foram referência pra gente, mas são personagens um pouco mais raras de se ver no cinema, ainda mais no cinema brasileiro”.
O filme aborda temas muito sensíveis e difíceis, como abuso e violência. Como foi o processo de imersão nesse universo e qual a responsabilidade de interpretar uma personagem que lida diretamente com essas questões?
“Eu acho que fazer um filme que aborda esses assuntos já é uma responsabilidade, né? Fazer uma personagem que lida com isso diretamente também é uma responsabilidade, porque a gente está ali ilustrando algo que acontece diariamente, infelizmente”.
“A gente está lançando o filme justamente numa semana em que aconteceu uma agressão, bom, uma tentativa de homicídio, né? Uma coisa absolutamente inaceitável, brutal, que foi filmada, e por isso a gente pôde ver com os próprios olhos tamanha violência injustificável”.
“Então, realmente, essas coisas acontecem diariamente. É claro que existe uma responsabilidade em trazer esse assunto à pauta por meio de um filme ou de qualquer outra obra de arte, porque você faz com que as pessoas reflitam sob uma outra ótica. O assunto pode tocá-las e sensibilizá-las de um outro jeito, por meio do envolvimento com uma personagem, com os conflitos dela”.
“Isso às vezes atinge de uma forma diferente, ou até alertando, no sentido de que muitas vezes a pessoa não tem conhecimento de determinado assunto, ou conhece pouco, ou talvez nunca tenha se sensibilizado com ele. Então, é um poder que a arte tem. E eu acredito nela”.

A motivação de Atena é revelada no clímax da história. Você já tinha conhecimento sobre esse ponto-chave da personagem desde o início do projeto, ou foi algo que foi se revelando durante a produção? Como isso influenciou sua performance?
“Sim, eu… eu na verdade recebi o roteiro completo, né? Eu sabia mais ou menos de uma pequena sinopse quando recebi esse roteiro, mas também fui descobrindo as coisas lendo. Eu li de uma vez só, então já soube desde o começo. Enfim, isso torna a narrativa muito forte. E sabemos que, infelizmente, isso acontece”.
“Na verdade, foi isso que me chamou a atenção no roteiro. Não exatamente esse ponto, mas todo o assunto, toda a história, a personagem. Então foi isso que me deu vontade de fazer, mesmo com as condições muito difíceis em que filmamos”.
“Era o ápice da pandemia. Tínhamos que ficar isolados em Gramado o tempo inteiro, porque não dava para ir e voltar fazendo testes toda semana. As condições de filmagem eram bem difíceis. E ao mesmo tempo, foi feliz, porque estávamos trabalhando, estávamos juntos. Fomos uma equipe muito unida, e estávamos contentes de estar fazendo esse filme. Embora o assunto fosse pesado, o set era alegre”.
Atena age como uma vigilante, buscando justiça com as próprias mãos. Você acredita que as ações dela são justificáveis dentro da narrativa do filme? Como você, Mel, enxerga essa linha tênue entre justiça e vingança?
“Essa figura da justiceira é muito interessante, e a gente consegue entender os motivos pelos quais ela resolve fazer justiça com as próprias mãos, mas não é o correto, né? Não deveria ser assim. A gente não deveria fazer justiça com as próprias mãos”.
“Teoricamente, deveríamos ter um Estado, leis que nos protejam, que garantam os nossos direitos e que punam as pessoas que cometem crimes, né? Então, eu não colocaria como justificável. É revoltante, a gente entende, mas não é o certo”.
“A personagem da justiceira é uma anti-heroína. A gente acaba torcendo por ela, mesmo sabendo que o que ela faz não é o caminho ideal. Você perguntou sobre a linha entre justiça e vingança, sim, a vingança é movida por um impulso passional, independentemente dos meios legais que temos à disposição. É um sentimento para aplacar uma dor, uma revolta, e por isso a pessoa age dessa forma”.
“Justiça é um conceito bastante amplo, bastante complexo, mas que deveria ser aquilo que buscamos por meios legais. E deveríamos estar amparados por esses meios, né? Nem sempre é o que acontece, principalmente nesses casos”.

Os bastidores do filme
O filme se passa em Gramado. A locação da cidade de alguma forma influenciou a composição da personagem ou a atmosfera das cenas (além do sotaque que deu pra perceber que você fez muito bem)?
“Nós ficamos o tempo inteiro em Gramado. O filme era… a gente rodou em seis por um, então não dava para eu voltar para São Paulo. Fiquei um mês direto em Gramado. Então muda a atmosfera, a cidade. A gente filmou muito à noite, né? Você deve ter percebido que é praticamente tudo noturno. E era inverno. Embora os figurinos parecessem de meia estação, estava muito frio. O dia mais quente que a gente teve estava 12 °C. Então, assim, estava bastante frio.”
“Tudo isso — Gramado, Canela, aquela região toda — tem toda uma atmosfera, um clima, uma arquitetura, uma cultura que, claro, influenciaram a gente. E a escolha de fazer o sotaque — que eu não tenho, mas que foi trabalhado — que legal que você percebeu! Porque é isso: é um filme que se passa em Gramado, tem atores gaúchos, e o sotaque está presente, né? Há uma personalidade, uma característica cultural ali do estado”.
“Embora eu não tenha o sotaque, o sotaque gaúcho é muito familiar pra mim. Literalmente, eu nasci em Porto Alegre e tenho minha família em Porto Alegre. Então, resolvi usar esse conhecimento para trazer mais esse ambiente sulista para o filme, fazer com que ele se apresente também como um filme regional. Achei bacana”.
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Qual cena, ou sequência de cenas, foi a mais desafiadora para você gravar, seja emocionalmente ou fisicamente?
“É, a sequência mais desafiadora pra mim, a mais difícil mesmo, foi… vai, vou dar um spoiler… não, não vou dar spoiler não. Foi uma cena que eu fiz com o Gilberto Gawronski, que é uma cena de luta. E que a gente filmou ali na beira do Guaíba. Era um dia muito, muito frio, acho que estava uns 8 °C, e eu estava filmando de sainha, com uma blusa que deixava um pedaço da barriga de fora”.
“E o Gil também… ele teve que tirar a camisa em um determinado momento. E a própria cena de luta também, né? A gente coreografou e tudo mais, mas mesmo assim, no frio, de madrugada, a gente de uma sofrida (risos). Essa foi, eu acho, a sequência mais difícil”.

Experiência dentro e fora das telas
Você ficou conhecida pelo grande público na TV (inclusive Presença de Anita chegou ao Globoplay recentemente), fez bastante cinema e está sempre presente no teatro. A gente sabe que cada meio tem sua particularidade, mas pra você vira uma chavinha no seu modo de interpretar a depender do meio ou público?
“É, eu acho que a experiência vai te ensinando a transitar pelos diferentes meios, né? E entender que cada um tem uma linguagem e exige determinada coisa de você. Agora, como eu faço muito teatro, acredito piamente que o teatro é a base de tudo. A base é contar histórias. E essa base começou muito lá atrás, no teatro”.
“A partir do teatro, com o tempo, veio o cinema, veio a TV, vieram os streamings, vieram as redes sociais. Mas a estrutura vem de algo muito sólido, que é o teatro. E o teatro, por ser feito ao vivo, com todo o imponderável ali e a repetição, vai te dando muitas ferramentas; você ganha muito curso com o teatro”.
“Então, acredito que o teatro acaba também te ensinando a transitar melhor nesses outros meios, embora, claro, a experiência tanto no teatro quanto no audiovisual seja o que ajuda a entender como interpretar para cada linguagem mesmo, em cada meio”.
Atena está em exibição nos cinemas de todo o Brasil. O longa metragem tem direção de Caco Souza e também é estrelado por Thiago Fragoso.
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