Quando se trata de um filme sobre o poder da crença, existem dois caminhos possíveis: um deles é trabalhar a fé como uma força restauradora, algo bem representado no cinema contemporâneo principalmente pelo diretor M. Night Shyamalan. Cineasta de filmes de gênero, Shya enxerga a crença como uma forma de seus personagens resolverem os seus traumas e seguirem a vida curados do cinismo. O outro caminho, mais reducionista, é a mera propaganda religiosa. Inexplicável, filme nacional que chega aos cinemas nesta semana, prefere a segunda opção.
Baseado em uma história real, a trama do filme acompanha um casal, interpretado por Eriberto Leão e Letícia Spiller, que vive o pânico de ter um filho internado na UTI em estado grave. Quando o cenário parece irreversível, os dois se entregam para a única coisa que lhes resta: a fé.
Apesar da premissa muito emocional, o drama de Inexplicável acontece mesmo em uma pequena janela no final do segundo ato. É quando o personagem do pai se revolta contra o destino que acometeu a criança e parte para uma mentalidade anti-fé. Apesar das intenções dessa virada serem óbvias, é ao menos interessante acompanhar como a postura de Marcus afeta seu casamento com a esposa, e existe uma construção visual da decadência moral do personagem que é bem acompanhada pela atuação de Leão.
Talvez se Inexplicável tivesse desde o início o foco em como os seus personagens reagem à falta ou a presença da crença, o longa de Fabrício Bittar poderia oferecer um pouco mais para o espectador. Mas a sensação que fica é que o cineasta não está muito interessado nesse conflito mais enriquecedor para os seus personagens, preferindo partir para a panfletagem religiosa mais óbvia e objetiva.
Nesse sentido, o roteiro do projeto tem duas características bem marcadas: a repetição grosseira de seus temas, já que múltiplos personagens discursam sobre a potência da fé mesmo quando a premissa já está óbvia para o espectador, e uma construção dramática apelativa. Essa apelação, inclusive, pode ser observada em um erro fatal de Inexplicável: já que o pânico se instaura logo nos primeiros minutos, o longa nunca atinge um ápice dramático e, como consequência, não chega a emocionar. O choro de Letícia Spiller, recurso que a atriz é obrigada a explorar durante toda a projeção, não gera nenhum efeito já que se torna em algo tão corriqueiro.
Algumas representações simbólicas do filme esbarram no mesmo problema. A forma como o longa retrata os médicos de forma robótica e fria, funcionando como um contraponto à fé dos familiares, chega a ser moralmente duvidosa – o que fica claro quando a personagem da mãe diz ao filho em coma que os profissionais ‘‘não sabem de nada’’. É rasteira também a maneira como o longa trabalha seus personagens infantis: como se crianças em estado crítico não fossem o suficiente, o longa aposta em diálogos apelativos para arrancar o choro fácil.
A partir de uma dinâmica tão pouco possibilitadora, que enxerga as cenas não como uma forma de expandir seu escopo dramático, mas sim para martelar suas verdades para o espectador, Fabrício Bittar pouco articula com a câmera. Não chega a ser surpresa perceber como Inexplicável se apoia em uma trilha sonora que mastiga suas intenções para o espectador, já que o longa tem pouco a dizer com a imagem.
Ao menos o que fica ao final da projeção é perceber como Letícia Spiller, Eriberto Leão e André Ramiro conseguem trazer uma dose de sinceridade para um filme tão limitado. As boas atuações, porém, provavelmente não serão o suficiente para converter os céticos.
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