Quarto capítulo da franquia chinesa de sucesso Detetive Chinatown, o novo Detetive Chinatown: O Mistério de 1900 retrocede no tempo para explorar a onda xenofóbica contra os chineses na São Francisco do início do século XX.
Surpreendentemente, o filme evita o patriotismo exacerbado comum em produções sino-americanas e acerta ao adotar um tom leve, com muito humor autodepreciativo e uma mensagem de tolerância que, embora desequilibrada em certos momentos, mantém a narrativa envolvente.
Na trama, o assassinato da filha de um congressista republicano racista (John Cusack) e de um ancião indígena desencadeia uma investigação improvável: Bai Xuanling (Chow Yun-Fat), líder da comunidade local, chama o detetive prodígio Qin Fu (Liu Haoran) para inocentar seu filho, Bai Zhenbang (Zhang Xincheng).
Fu, treinado por um detetive britânico bem conhecido, se alia ao temperamental Ah Gui (Wang Baoqiang), um chinês criado por nativos americanos que assume o papel de um excêntrico ajudante.

O enredo se desenrola como uma sátira policial, com direito a exames forenses baseados na medicina tradicional chinesa e sequências pastelão, como a hilária cena em que Fu cai seminu no colo de Gui ao som de Only You, do The Platters.
A dinâmica entre Liu Haoran e Wang Baoqiang sustenta o humor e o ritmo do filme, com boa química e timing cômico preciso. Chow Yun-fat ainda entrega os diálogos mais marcantes do longa, transitando com desenvoltura entre o cômico e o dramático. Outro ator que se destaca com seu humor é Yue Yunpeng como Fei Yanggu.
Entre os mistérios e os dramas sociais há espaço para muita pancadaria, protagonizadas principalmente por Ah Gui. As lutas lembram muito as comédias como Kung-Fusão. Porém, à medida que a história se aproxima do fim e fica mais séria, a violência também se torna mais pesada e menos cômica.
Detective Chinatown: O Mistério de 1900 faz um esforço louvável ao retratar o preconceito enfrentado pelos imigrantes chineses, inclusive mencionando a controversa Lei de Exclusão Chinesa e outras legislações discriminatórias do período. E muita coisa se espelha com acontecimentos atuais em diversas partes do mundo, a história sempre se repete.

A violência verbal e física dirigida aos personagens chineses impressiona e confere uma camada dramática ao enredo. A crítica social ganha força em seu desfecho nacionalista, no qual personagens anunciam a futura ascensão da China como superpotência global.
Há ainda polêmicas potenciais, como o uso de brownface para representar personagens indígenas ou mestiços, o que possivelmente levantará críticas em alguns lugares do mundo.
O filme tem um ritmo mantém o ritmo fluido, e os momentos cômicos funcionam. As piadas, mesmo quando absurdas, têm timing e sensibilidade cultural.
Como entretenimento, Detective Chinatown: O Mistério de 1900 é eficiente: um mistério leve, com reviravoltas exageradas e estética vistosa, ideal para quem busca uma comédia acessível, com toques de crítica social e um retrato do encontro entre Oriente e Ocidente. O filme pode não agradar a todos, mas é difícil sair da sessão sem ao menos algumas boas risadas e reflexões.
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