Em Ainda Não é Amanhã, estreia de Milena Times na direção, acompanhamos a trajetória de Janaína (Mayara Santos), jovem de 18 anos, primeira de sua família a ingressar na universidade, que vê seus planos ameaçados pela descoberta de uma gravidez indesejada.
O filme, vencedor do prêmio de Melhor Atriz na mostra Novos Rumos do Festival do Rio, é, antes de tudo, um mergulho sensível e extremamente necessário em uma realidade muitas vezes ignorada.
Ambientado na periferia de Recife, o longa-metragem não usa cenários construídos, mas sim lugares reais, o que torna o filme muito mais próximo da realidade. A câmera próxima, os sussurros, os silêncios incômodos e os espaços apertados constroem não só o ambiente físico, mas também o mental, um lugar onde o tempo parece se estender, lento, pesado, como quem não sabe para onde correr.
A rotina de Janaína, entre a faculdade, os estudos, o namoro e a vida doméstica, é atravessada pela notícia de uma gravidez que, desde o início, não traz alegria. Pelo contrário, é a constatação de que a sociedade continua negando às mulheres, especialmente às periféricas, o direito de escolher.
A palavra “aborto” quase não é dita, e isso não é acidental. É reflexo de um país onde interromper uma gestação, salvo exceções específicas, ainda é crime. Esse não dito atravessa a obra de ponta a ponta, seja nos olhares, nos gestos contidos ou nas várias conversas que acabam não acontecendo.

Milena Times demonstra uma maturidade impressionante ao não espetacularizar o drama. O caminho que escolhe é o da observação, e é justamente aí que reside sua potência. A claustrofobia da protagonista se manifesta em planos que a comprimem, como na cena em que as estantes da biblioteca parecem fechar-se ao seu redor, materializando o peso de uma escolha que nunca foi, de fato, oferecida.
Cores frias dominam os ambientes, o que não apenas ilustra a melancolia e o isolamento, como também dialoga com a simbologia da água, dos sonhos, do afogamento silencioso de uma jovem que luta contra um destino que não escolheu.
Ainda Não é Amanhã não fala apenas sobre aborto. Fala sobre o direito ao futuro. Sobre como, em um país profundamente machista e desigual, o corpo feminino segue sendo um território cercado por leis, culpas e julgamentos.
É comum ouvir casos de jovens que não aceitam ser pais e acabam deixando suas parceiras. E a situação se agrava, pois, além de não se responsabilizarem pela gravidez, ainda fazem de tudo para que o aborto não seja feito. Isso se reflete nas decisões de Janaína, que acaba se afastando do namorado.
Porém, Jefferson, o personagem de Mário Victor, mostra total apoio a namorada. Mesmo com dificuldades financeiras, ele demonstra que aceitará o filho e dará um jeito de criá-lo junto com a namorada, ao mesmo tempo em que deixa nas mãos dela a decisão de levar a gravidez adiante ou não, respeitando totalmente sua escolha.

Apesar disso, Janaína encontra maior apoio nas figuras femininas, principalmente na amiga Kelly (Bárbara Vitória). A mãe e a avó de Janaína percebem que a jovem está escondendo algo, mas dão espaço para que ela se abra sobre quando estiver pronta. A reação da mãe quando Janaína finalmente decide conta a verdade é comovente. A empatia é o principal pilar desta narrativa.
Mayara Santos se destaca com sua atuação. Sua personagem não precisa falar muito para mostrar o que sente. Está tudo no olhar distante, na postura retraída, no sorriso que aos poucos se desfaz. É uma atuação precisa, delicada e, ao mesmo tempo, devastadora.
O ritmo do filme acentua a angústia de uma espera que nunca termina. Espera por uma solução, por uma resposta, por um amanhã que, como diz o título, ainda não chegou e, para muitas, talvez nunca chegue.
Ainda Não é Amanhã é um reflexo desconfortável de um país que insiste em criminalizar a autonomia das mulheres, enquanto finge não ver que o aborto, legal ou clandestino, continua sendo uma realidade cotidiana. O filme deixa muito claro que certos temas não devem ser tratados como tabus.
O filme é distribuído pela Embaúba Filmes, e estreia nesta quinta-feira, 5 de junho, nos cinemas
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