Apesar de Ainda Estou Aqui funcionar como um filme de denúncia da ditadura militar, o diretor Walter Salles parte de uma lógica estilística muito bem articulada para desenvolver o drama de sua protagonista. Representante do Brasil no Oscar 2025 e sucesso em festivais, o longa possui uma linguagem acessível que deve agradar os votantes da Academia, apesar de possuir uma certa complexidade em sua abordagem.
O filme é baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, que narra a história real do sequestro do seu pai, Rubens Paiva (Selton Mello), pelos oficiais da ditadura militar nos anos 70 no Rio de Janeiro. Ao contrário do material original, o filme de Walter Salles vai trabalhar dentro da perspectiva de Eunice Paiva (Fernanda Torres), mãe que é obrigada a cuidar sozinha de seus cinco filhos após o desaparecimento do marido.
Acima de tudo, o cineasta está interessado em desconstruir toda uma lógica de imagem e gênero na medida em que o patriarca da família sai de cena. Os primeiros 30 minutos, que quase não possuem história e soam mais como um arremedo de registros daquela família, apostam numa textura granulada da imagem e uma iluminação estourada. A câmera na mão de Salles e as músicas da MPB dos anos 70 ajudam a criar uma atmosfera nostálgica e idílica, que funciona como a base de todo o desenvolvimento dramático que se estabelece a seguir – e a sinceridade de Salles em filmar essas cenas fazem do trecho o mais potente de todo o filme.
Nesse sentido, a decisão de colocar o protagonismo na personagem de Fernanda Torres é acertada, já que a personagem é a encarregada de proteger essa realidade idealizada para os filhos a partir do momento em que os horrores do regime militar se estabelecem e todo o entorno é transformado. O trabalho de Fernanda Torres, em uma atuação muito potente, tem como ponto de partida uma transformação que está acima de tudo na fisicalidade da atriz, que vai inevitavelmente se alterando na medida em que o universo dos primeiros 30 minutos é deixado para trás.
É a partir do segundo ato que Ainda Estou Aqui se desenvolve em um suspense competente, sempre pautado pelas sugestões. A decisão, inclusive, de não mostrar de forma gráfica os absurdos da ditadura militar, mas sempre sugerir o horror com o que está fora do plano, ajuda a construir a sensação de confusão sentida pela protagonista, que sofre com a falta de informações sobre o desaparecimento do marido. Nessa dinâmica de ameaça invisível representada pelos oficiais do regime militar, não chega a ser um exagero dizer que Ainda Estou Aqui também flerta com o gênero do terror psicológico.
Em suas resoluções, Walter Salles volta a apostar em um registro menos clássico. Ao recusar a entrega de uma resolução mais clara sobre os acontecimentos e um desenvolvimento dramático concreto, o longa adiciona potência ao vazio deixado pela violência da ditadura. No fim das contas, o trauma não se resolve e os anos de ouro não voltam, mas é possível seguir em frente com a cabeça erguida, sem nunca esquecer do passado.
Nessa mensagem bem articulada sobre memória e luto na esfera privada de seus personagens, o filme deixa claro que a única forma possível de lidar com um lamentável período da história é não a esquecendo.
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