Remakes de novelas como Pantanal, Renascer e Vale Tudo vêm conquistando espaço na TV brasileira com um pé no passado e outro no presente. Mas o que essa tendência diz sobre o momento atual da dramaturgia?
É o que propõe Bernardo Barreto, ator e cineasta brasileiro que tem ganhado reconhecimento dentro e fora do país com obras como Malhação (2006) e, mais recentemente, Invisíveis (The Ballad of a Hustler), filme que lhe rendeu de destaque e prêmios em festivais como 23rd Garden State Film Festival.
Atualmente morando em Los Angeles, Bernardo compartilha uma visão crítica sobre o fascínio por histórias do passado. Para ele, os remakes não são apenas modismos, mas reflexos de uma busca coletiva por conexão e profundidade — algo que anda raro no conteúdo acelerado da era digital.
“A nostalgia funciona como um código emocional poderoso. Ela sinaliza um desejo de voltar ao que parecia mais simples, mais humano, mais profundo. E talvez seja por isso que agora elas ressurgem: existe uma carência de histórias com coragem”, diz ele.
Segundo Bernardo, ao revisitar obras marcantes, o público encontra um tipo de conforto emocional em tempos de incerteza. Mas ele ressalta: esse resgate só faz sentido se provocar novas reflexões.
“As novelas antigas se arriscavam mais. Eram politicamente incorretas, provocativas. Era gente com alma de dramaturgia, não só de métrica, venda e algoritmo. Hoje, não importa tanto se o conteúdo é bom — importa se ele performa. Mas é dentro do risco que nasciam as coisas mais incríveis”, diz.

Bernardo também destaca como a ficção tem o poder de antecipar temas urgentes. Séries e filmes recentes, como Dia Zero e Conclave, lançados em meio a acontecimentos reais, mostram como a arte pode captar o espírito do tempo — e até, de certa forma, preparar o público para ele. “A ficção se alimenta do mundo real e, ao mesmo tempo, o alimenta de volta”, afirma.
Ele também aponta uma mudança importante na forma como personagens são representados. Em vez de priorizar apenas a juventude, produções recentes vêm valorizando figuras mais experientes, com trajetórias intensas — uma escolha que aproxima ainda mais essas histórias da vida real.
Para o artista, o grande desafio do audiovisual contemporâneo é equilibrar inovação com autenticidade. Ele acredita que, mesmo em meio ao excesso de conteúdo, existe um espaço crescente — principalmente entre os jovens — para histórias mais profundas, ousadas e com alma.
“Essas obras ativam emoções que estavam adormecidas e colocam o espectador em contato com camadas mais profundas de si mesmo. Antigamente, as pessoas paravam a vida pra escrever uma história. Tinha entrega, tinha tempo, tinha loucura. A televisão já foi chamada de fábrica de pizza, mas essa fábrica é a internet. E por mais contraditório que pareça, é justamente nesse excesso que cresce à vontade por histórias mais profundas, principalmente entre os jovens”.
Remakes só ganham relevância quando vão além da repetição estética. Para Bernardo Barreto, é preciso reinterpretar o passado de forma crítica, dialogando com o presente. O verdadeiro valor está em revisitar histórias antigas para provocar novas reflexões sobre quem somos hoje.
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