Audiovisual aposta em alternativas de investimento para além das Lei Paulo Gustavo e a Lei Rouanet. O sucesso internacional dos filmes brasileiros Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto trouxe de volta o prestígio do audiovisual nacional e o orgulho do público. Porém, o setor ainda enfrenta um grande desafio: como viabilizar o financiamento de seus projetos.
“Conquistar incentivo público direto via leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc, ou indireto via Lei do Audiovisual e Rouanet é uma tarefa árdua e que exige uma expertise na construção de projetos, o que deixa muitas produtoras e artistas independentes de fora, por falta de acesso a essas informações”, explica Mab Vizeu, CEO da Noches Produções.
Mab, que tem experiência em projetos para a Disney, agora busca investimento para o anime Genius!. O piloto, lançado no ano passado, alcançou 4 milhões de pessoas de forma orgânica em menos de um mês. Participante do programa Acelera Niterói, a empresária defende a busca por alternativas além do financiamento público para fortalecer o setor audiovisual.
“Atuamos em um sistema frágil, no qual mudanças políticas podem inviabilizar projetos já em andamento”, destaca Mab, que vê no Japão uma série de casos de sucesso de investimento privado no audiovisual, com grandes sucessos como o Naruto.
“O seisaku iinkai é um modelo surgido entre os anos 70 e 80, de financiamento coletivo dos animes japoneses,, e movimenta bilhões com produções como Demon Slayer e Attack on Titan. Estudando esse modelo, enxerguei como um caminho para reinventar o financiamento de filmes, séries e animações no Brasil”, aposta a empreendedora.

Como funciona o seisaku iinkai?
Empresas formam consórcios para dividir custos e riscos de projetos, em troca de participação na receita. Um exemplo de sucesso é Demon Slayer, que gerou US$ 2,7 bilhões com produtos e licenciamento. Segundo Vizeu, o segredo está na diversificação de fontes de renda, como transmissão, trilha sonora e turismo. A adaptação desse modelo ao Brasil poderia encontrar potenciais interessados.
“O interessante do comitê de produção é que além de dividir os custos, cada membro do comitê fica responsável por gerenciar a fatia do produto da qual tem expertise. Uma plataforma de streaming, ficaria responsável por gerenciar os direitos de exibição para outras janelas e territórios, uma empresa de figures gerenciaria os direitos de licenciamento de marca e personagem, e poderia sublicenciar esses direitos para outras empresas, por exemplo”, explica Mab.
Segundo Vizeu, em um modelo colaborativo, streamings como Globoplay e Netflix podem investir em troca dos direitos de exibição, enquanto marcas como Tilibra e Iron Studios cuidariam do licenciamento. Cada parceiro contribui com sua especialidade e divide os riscos. Em um projeto de R$ 2 milhões, por exemplo, um streaming poderia investir 25% e uma fabricante de material escolar 15%.
Obstáculo legal
Os principais desafios para o modelo de consórcio no audiovisual são a falta de um marco regulatório claro para divisão de lucros e direitos autorais, e a visão cultural de que o setor é uma despesa, não um investimento. Especialistas defendem o uso de incentivos fiscais, como os da Lei do Audiovisual, e a criação de comitês de produção para impulsionar esse modelo.
“Precisamos de um marco regulatório claro para divisão de lucros e direitos autorais“, alerta o advogado especializado em entretenimento Daniel Solis, advogado do escritório Nelson Willians.
A adoção do modelo de consórcio pode transformar o audiovisual brasileiro, reduzindo a dependência de verbas públicas e criando parcerias entre setores. Uma produção de sucesso geraria impacto em produtos, streaming e turismo. O exemplo do Japão mostra que o modelo funciona — resta saber se o Brasil está preparado para essa mudança.
“Uma série de sucesso impulsionaria vendas de produtos, streaming e até turismo nas locações“, projeta a empresária.

Inspiração estadunidense
Ryan Coogler, diretor de sucessos como Pantera Negra e Creed, fechou um acordo inédito com a Warner Bros. para o filme Pecadores. Ele garantiu controle criativo, participação nos lucros desde o início e a propriedade total do longa após 25 anos. O modelo, raro mesmo entre grandes diretores, fortalece a autonomia artística e pode influenciar a indústria.
Opções made in Brazil
O cineasta brasileiro Marcelo Galvão propõe um modelo de negócios em que o investidor participa dos bastidores do filme e tem retorno garantido do valor investido em até 18 meses, com lucro acima do CDI. Só após esse pagamento a produção passa a lucrar. A ideia surgiu de sua experiência nos EUA e teve como primeiro parceiro Giordano Biagi, que financiou 90% do filme Fourth Grade e foi creditado como produtor executivo.
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