Poucos filmes recentes abraçam o body horror com tanta coerência estética quanto A Meia-Irmã Feia (The Ugly Stepsister, 2025). Dirigido por Emilie Blichfeldt, o longa norueguês parte da fábula da Cinderela para reescrever o mito da beleza sob a lente do grotesco. Aqui, o terror não mora em monstros externos, mas naquilo que o corpo feminino é forçado a suportar.

    No papel de Elvira, Lea Myren entrega uma performance que combina ingenuidade e desespero físico em doses quase insuportáveis. Ela é a meia-irmã que vive em estado de delírio, uma jovem que acredita, com fé cega, que dor e amor são sinônimos.

    🎞 Assista ao trailer oficial de A Meia-Irmã Feia:

    Ao redor dela orbitam Ane Dahl Torp como a mãe-madrasta Rebekka, Thea Sofie Loch Næss como Agnes (a “Cinderela” tradicional) e Flo Fagerli como Alma, a única presença genuinamente compassiva nesse mundo saturado de padrões e punições.

    duas mulheres vestidas com roupas de época em tons escuros sentadas em poltronas vermelhas; uma delas sorri enquanto segura uma revista antiga de estética, e a outra observa séria ao lado.
    A busca pela aparência perfeita assume tons sombrios em A Meia-Irmã Feia (Reprodução/Shudder)

    Blichfeldt constrói o filme como um conto de fadas infectado. A fotografia alterna a delicadeza dos tons pastéis e rosados com texturas úmidas e sombras esverdeadas que lembram decomposição. É o contraste entre o sonho e a carne, entre o artifício e o que pulsa por baixo. Em termos visuais, A Meia-Irmã Feia é um híbrido de horror de época e realismo visceral.

    🔮 Saiba mais: 10 filmes de terror recomendados por críticos: os títulos mais aclamados

    A direção de Blichfeldt é cirúrgica na forma como filma o corpo. Não há medo de aproximar a câmera da pele, da respiração, do som do tecido rasgando. Cada transformação estética de Elvira, a retirada brutal do aparelho, a correção forçada do nariz, a sutura dos cílios, funciona como performance de mutilação, uma coreografia de autodestruição.

    jovem de vestido branco observa pela janela com uma máscara metálica presa ao nariz e à testa por tiras rosadas, em um ambiente de madeira escura e cortinas rendadas
    Durante o processo de transformação, Elvira observa o mundo de fora como quem tenta enxergar beleza através da dor (Reprodução/Shudder)

    O desconforto não vem apenas da violência explícita, mas do reconhecimento: o que ela faz consigo é o que o mundo faz com qualquer mulher quando diz que “beleza exige sacrifício”. É um terror que se ouve dentro do corpo, mais do que fora dele.

    Lea Myren é o coração pulsante do longa. Sua atuação é física, quase animal. Ela não interpreta Elvira, ela a habita, e o resultado é devastador. Há cenas em que a vulnerabilidade é tamanha que o espectador se sente cúmplice do sofrimento, como se invadisse algo íntimo demais para ser visto.

    Thea Sofie Loch Næss, por sua vez, oferece o contraponto perfeito: uma presença contida, fria, que simboliza o ideal inalcançável. A distância entre as duas é o verdadeiro campo de batalha do filme.

    mulher loira de vestido azul-claro e colar vermelho sorri levemente enquanto uma pomba passa voando ao seu lado, em um cenário externo com colunas de pedra ao fundo.
    Agnes simboliza o ideal inalcançável de perfeição que persegue Elvira e alimenta o contraste entre desejo e repulsa no filme (Reprodução/Shudder)

    O roteiro é linear, mas contaminado por delírios. Blichfeldt estrutura a narrativa com rigor, evitando o sensacionalismo. Cada cena extrema tem propósito dramático, cada gesto repete o eco da fábula original, o baile, o sapato, a transformação, agora despidos de qualquer glamour. O que era magia se transforma em horror simbólico, e o que era moral vira doença social.

    close-up de um pé descalço ao lado de um sapato branco bordado, uma fita de cetim e um cutelo apoiado no chão de madeira, iluminados por luz alaranjada.
    O símbolo máximo do sacrifício: Elvira tenta caber no ideal de perfeição, mesmo que isso custe partes de si (Reprodução/Shudder)

    Esteticamente, A Meia-Irmã Feia flerta com o cinema do grotesco: a beleza e a repulsa coexistem no mesmo quadro. A montagem colapsa entre fantasia e pesadelo sem aviso, e o espectador nunca sabe onde termina o devaneio e começa a realidade. É um jogo que lembra o folk horror nórdico, onde o belo e o abominável se confundem sob a mesma luz.

    🎬 Leia também: Terror Folk: 11 filmes que definiram o horror folclórico no cinema

    Há momentos em que o longa parece desafiar o próprio limite do que o gênero pode suportar. O gore, aqui, não é gratuito: ele funciona como catarse, como tradução física da pressão social. Quando o corpo explode (e explode) o filme está dizendo algo sobre o colapso do ideal. É o “final feliz” despido de maquiagem, um corpo sem véus, um mito que sangra.

    mulher com vestido azul-claro e adornos de época usa uma máscara metálica presa ao rosto por fitas rosadas e observa algo pequeno entre os dedos enquanto segura um lenço rendado, com árvores ao fundo.
    Em meio às tentativas de se reinventar, Elvira leva a obsessão pela beleza ao limite do grotesco (Reprodução/Shudder)

    Entre os destaques, estão a direção precisa de Blichfeldt, a fotografia que equilibra conto e carnificina, e a originalidade da releitura. O filme é consciente de seu lugar dentro do terror contemporâneo e dialoga com o que o gênero tem de mais ousado: a ideia de que o horror pode ser um espelho político, moral e existencial.

    O ponto fraco talvez seja o excesso: a repetição de certas humilhações que prolongam o desconforto além da necessidade narrativa. Mas mesmo esse exagero parece proposital, um convite a sentir o cansaço físico e emocional de quem tenta caber em um molde impossível.

    🩸 Confira: 9 filmes de terror sobrenatural baseados em lendas que atravessam gerações

    Afinal, A Meia-Irmã Feia vale a pena?

    No fim, A Meia-Irmã Feia vale a pena. É o tipo de terror que não busca sustos fáceis, mas provoca desconforto genuíno. O filme entende o body horror como ferramenta narrativa e não como espetáculo, usando o choque para falar sobre controle, vaidade e violência simbólica.

    É cru, incômodo e, acima de tudo, coerente com o que quer mostrar. Não é um filme para todo mundo, e nem tenta ser. Mas, para quem gosta de terror que atravessa o estômago e chega na mente, A Meia-Irmã Feia é uma experiência forte, original e absolutamente relevante.

    💀 Continue no clima: veja outros títulos e matérias especiais de terror


    Deixe seu comentário

    Adoraríamos saber sua opinião!


    Descubra mais sobre Epipoca

    Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

    Compartilhe

    Licenciada e mestranda pela Universidade Federal de Pelotas, começou a produzir conteúdo em 2023 e desde então mergulha no universo do cinema e das séries, com um olhar afiado para críticas, listas e tudo que envolve a tela.

    ×

    URL Copiada com Sucesso