Sobre a premiação do Oscar deste ano temos ouvido dizer que o filme
"O Artista" surpreende e que é favorito a levar a estatueta. O que torna a aposta um fato curioso é saber que se trata de uma produção francesa, muda e em branco e preto, que agradou o público mesmo em tempos de cinema 3D.
De fato
"O Artista" é um filme lindíssimo. O espectador é convidado a revisitar ou mesmo conhecer o cinema mudo. Mais importante que o próprio enredo, que tem como personagem principal um astro do cinema mudo que se entrega à bebida e vê sua carreira entrar em total decadência por resistir ao surgimento do cinema falado, a obra estabelece com o público um diálogo sobre a própria arte de fazer cinema, seu surgimento e seu aprimoramento.
Em
"Meia-noite em Paris", o personagem central é um roteirista americano decadente que visita Paris, conhece a arte local e percebe que, mais do que apreciar ou saber sobre a arte, é importante interagir com ela. O espectador de
Woody Allen viaja com o personagem a uma Paris antiga, dos tempos da Belle Époque, período de efervescência cultural, inclusive do surgimento do cinema.
"A Invenção de Hugo Cabret" também se passa em Paris, no início do século 20. Hugo é um menino órfão que mora escondido com um tio na estação de trem. Do pai herdou o ofício de consertar coisas e a paixão por cinema. Um autômato deixado pelo pai o coloca em contato com
Georges Méliès, o pai do cinema francês. O que vemos depois é uma nova declaração de amor à sétima arte. Os efeitos visuais criados por Méliès convivem com os efeitos da moderna tecnologia 3D de
Martin Scorsese. Neste filme, o espectador está em Paris, ao lado de Hugo, porque a tecnologia contribuiu positivamente para essa interação.
É curioso perceber que três filmes produzidos no mesmo ano abordam a temática da arte de fazer cinema e a produção de sentido em seu espectador, já que uma delas ousou fazer mudo e branco e preto. A adesão afetivo-cognitiva do espectador vai variar conforme sua competência cultural ou vai depender da relação que estabeleceu com essa arte.
Há quem vá dizer que não irá ao cinema para assistir a um filme mudo, há quem vá dizer que se transportar no tempo é característica de filme adolescente ou que
"A Invenção de Hugo Cabret" é infantil. Contrárias a essas reações estarão aquelas de espectadores que mergulharam na arte para tirar dela o melhor proveito, porque o cinema permite diferentes experiências sensíveis.
O aspecto relevante das três obras é a rica contribuição para uma análise da trajetória do cinema que, desde muito tempo, encanta o público. A grande inovação, no entanto, veio das lentes 3D de Scorsese que inseriu o espectador em visita extraordinária à Cidade Luz, possível de ser vivenciada, por muitas pessoas, às vezes somente no cinema.