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06/08/2002 12:17

Entrevista - Marcelo Zarvos, autor da trilha de ''Beijando Jessica Stein'', fala com exclusividade ao e-Pipoca

''Existe uma diferença grande entre fazer música e viver de música'', diz autor da trilha do filme ''Jessica Stein''

Por Marcos Petrucelli


Próximo de completar 33 anos, Marcelo Zarvos é felizmente mais um nome brasileiro que ganha reconhecimento no mundo da música em território americano. Há 15 anos vivendo nos Estados Unidos, Zarvos é pianista e tem formação musical clássica, mas sem jamais renunciar aos vários ritmos universais - folclóricos, jazz, country ou mesmo o pop.

Quase ninguém presta atenção nisso, mas nos créditos da comédia independente ''Beijando Jessica Stein'', atualmente em cartaz em São Paulo, aparece o nome de Marcelo. É dele a trilha sonora incindental, que surge para pontuar os elementos de comédia e drama da história.

Leia a seguir entrevista exclusiva com o músico Marcelo zarvos, de sua residência em Nova York, concedida ao diretor do site e-Pipoca, Marcos Petrucelli.


e-Pipoca - Os americanos costumam dizer que a música brasileira e os músicos do Brasil são geniais. É assim mesmo? Como a indústria te recebe?

Marcelo Zarvos - É verdade que a música brasileira em geral é muito bem vista por aqui. Eu diria que talvez, junto com o futebol, ela seja o nosso maior produto de ''exportação''. O fato de ser brasileiro sempre me abriu muitas portas, especialmente no meu trabalho como compositor de jazz e música erudita. Na área de cinema, para dizer a verdade, não faz muita diferença. A não ser é lógico que o filme tenha a ver com o Brasil, como no caso de ''História de Futebol'' ou ''Bossa Nova'' (para o qual compus parte da trilha adicional, e a principal tendo sido assinada por Eumir Deodato).


e-Pipoca - Num mercado tão competitivo quanto o americano, o que é preciso para chamar atenção e ser reconhecido?

Marcelo Zarvos - Se eu tivesse a fórmula, sem dúvida eu estaria milionário... Mas em geral eu diria que muita dedicação e sorte de se associar a projetos de sucesso são alguns dos fatores mais importantes. Eu também acredito muito em tentar criar, sempre dentro do possível, algo novo e original em qualquer que seja o trabalho: trlihas para filme, balé, teatro, CDs ou música erudita.

e-Pipoca - O que é mais difícil: fazer música no Brasil ou ser um músico na América?

Marcelo Zarvos - Antes de mais nada, existe uma diferença grande entre fazer música e viver de música. Obviamente uma cidade como NY oferece um número enorme de possibilidades de trabalho, porém a competição também é proporcionalmente mais forte. No final das contas eu acho que quem quer fazer música vai acabar achando uma maneira.

e-Pipoca - Em 2000 você assinou a trilha sonora de ''The Truth About Tully'', que não chegou ao Brasil. Fale sobre esse trabalho e como surgiu essa oportunidade.

Marcelo Zarvos - ''Tully'' foi um projeto maravilhoso dirigido pela Hillary Birmingham. É um longa que se passa numa fazenda em Nebraska, nos EUA. Eu fui chamado pelo editor, um paulista de muito talento chamado Afonso Gonçalves, que tinha visto ''História de Futebol'' num festival aqui em NY. É um drama familiar muito bonito, e a trilha tem um forte sabor de ''bluegrass'' e ''country''. O filme ganhou muitos festivais (Los Angeles Film Festival, Newport, GenArt e Aspen) e acho que vai aos cinemas por aqui no final do ano.

e-Pipoca - ''Beijando Jessica Stein'' é seu segundo trabalho internacional no cinema e o primeiro conferido no Brasil. Trata-se de um filme independente, premiado no Los Angeles Film Festival e que terá grande destaque na mídia. Qual é sua espectativa? As críticas te preocupam?

Marcelo Zarvos - Eu fico feliz que ''Jessica Stein'' seja visto no Brasil. Foi realmente uma surpresa maravilhosa toda atenção que o filme recebeu, e esse ano sem dúvida foi um dos filmes independentes de maior sucesso nos EUA. Quanto às críticas, eu acho que quem faz cinema deve estar sempre pronto a recebe-las, boas ou ruins. Até então a imprensa americana tem sido muito generosa comigo. Vamos torcer que no Brasil aconteça a mesma coisa.

e-Pipoca - Como foi o processo de trabalho para a composição da trilha de ''Jessica Stein''? Você teve liberdade na criação? Quanto tempo durou?

Marcelo Zarvos - A trilha foi composta e gravada em 10 dias, o que é muito rápido mesmo para cinema independente. Felizmente não era muita música e o conceito é mais de ''marcar'' certos elementos de comédia e drama, com uma grande parte das músicas do filme sendo coisas já gravadas (Ella Fitzgerald, Barry White etc.). Como todo filme, o processo de colaboração com o diretor é chave. Neste caso a atriz principal (Jeniffer Westfeld, que faz o papel de Jessica), por ser uma das roteiristas, também estava muito envolvida no processo, junto com o diretor Charlie Wurmfeld, é lógico.

e-Pipoca - Você assina a trilha de ''Uma História de Futebol'', documentário curta indicado para o Oscar. Uma parte do mérito da indicação também é sua, uma vez que o trabalho é avaliado como um todo. Qual foi sua reação ao saber que o filme concorria?

Marcelo Zarvos - Eu acho que todo filme é como uma equipe de futebol, ou seja, todos os ''jogadores'' contribuem, embora geralmente um ou dois recebam mais atenção. Eu estava em NY e tinha jantado com o Paulo Machline na noite anterior à indicação. A gente sabia que havia a possibilidade, mas tenho que admitir que quando ele me ligou as 8 da manhã berrando eu fiquei muito emocionado. O processo todo desse filme foi muito especial, pois foi a minha primeira trilha e também o primeiro filme do Paulo. Na estréia em Brasilia o filme levou o prêmio do juri popular e melhor música.

e-Pipoca - Ainda sobre Oscar, você certamente já se imaginou recebendo uma estatueta...

Marcelo Zarvos - Quem já não imaginou...? Mas para mim a felicidade é poder estar trabalhando em projetos diferentes e participando dessa comunidade maravilhosa do cinema independente mundial. Apesar das grandes produções em Hollywood, eu acho que os filmes menores são vitais para a ''reciclagem'' da indústria. Há 10 anos seria quase impossível que filmes como ''Jessica Stein'' recebessem tanta atenção, e quem mais tem a ganhar no final das contas é o próprio público.

e-Pipoca - Seu próximo trabalho no cinema é a trilha do documentário ''The Buffalo War'' (2001). Sobre o que é? Poderemos vê-lo no Brasil?

Marcelo Zarvos - É um documentário produzido pela PBS (uma espécie de BBC ou TV Cultura) sobre o massacre dos búfalos em Montana, pela indústria pecuária. É um filme muito político, e mais uma vez a trilha tem um toque de ''bluegrass'' e ''country''. Uma das coisas mais legais em fazer trilhas é o desafio de compor em uma linguagem nova. Em geral, adaptar-se a estilos diferentes é um dos pré-requisitos para qualquer compositor que queira trabalhar com cinema. Mais uma vez, não sei se o filme vai chegar ao Brasil ou não. É possível que uma hora dessas acabe passando na TV a cabo.

e-Pipoca - Há novos projetos a caminho?

Marcelo Zarvos - Esse ano eu compus a trilha para um novo longa chamado ''2 Weeks 1 Year'', inteiramente filmado em DV (vídeo digital). O filme estreou no LA Film Festival em junho e eu recebi uma crítica maravilhosa da Variety (''Marcelo Zarvos' eclectic score is a standout, with touches of electronics and hints of jazz and serial music.'') Fora isso fiz a música para dois curtas. Um deles, ''Baseado em Histórias Reais'', do brasileiro Gustavo Moraes, e que fala sobre a ditadura militar dos anos 70, vai estrear no Festival de Curtas em SP em agosto. Em junho fiz música incidental para a peça ''Vestido de Noiva'', de Nelson Rodrigues, aqui em NY, numa linda tradução do roteirista Mauricio Zacharias. Estou terminando um balé chamado ''Divindades'' que lida com a cultura do candomblé Afro-Brasileiro e escrevendo uma nova peça de câmara para um grupo de NY chamado ''Quintet of the Americas'', que deve ter a premiere em janeiro de 2003.

e-Pipoca - Você vive nos Estados Unidos há mais de 10 anos. Quando virá nos visitar?

Marcelo Zarvos - Na verdade vivo aqui há 15 anos. Eu devo dar um pulo a SP em agosto, provavelmente na época do Festival de Curtas.





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