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04/07/2017 14:13

Artigo - Sobre o Cine-PE e o futuro do cinema brasileiro

por Marcos Petrucelli


No ano em que o Cine-PE comemora 21 anos de idade, o maior festival do nordeste brasileiro e certamente um dos mais importantes eventos cinematográficos do país teve de se reinventar. A 21ª edição do festival comandado por Alfredo e Sandra Bertini, que aconteceria entre os dias 23 e 29 de maio no Recife, foi adiada por conta de um boicote com motivações políticas. Assim que foram anunciados os filmes selecionados pela curadoria do festival, sete diretores (de curtas e longas) decidiram abandonar o evento por não aceitarem as participações de filmes cujo "discurso" era considerado de direita e, mais ainda, que seus realizadores compactuaram e financiaram o que a esquerda insiste em chamar de golpe ao Estado Democrático de Direito ocorrido no Brasil em 2016. Os filmes em questão eram a ficção "Real - O Plano por Trás da História", assinado por Rodrigo Bittencourt, que retrata os bastidores da criação do Plano Real, em 1994, e nem sequer estaria na competição; e o documentário "O Jardim das Aflições", dirigido por Josias Teófilo, sobre o filósofo Olavo de Carvalho.

É mais do que necessário dizer que o famigerado boicote - aliás, um ato de censura - foi promovido não apenas contra os filmes citados, mas principalmente para macular a imagem do festival pernambucano, idealizado e mantido pelo incansável Alfredo Bertini (que integrou a equipe do atual governo à frente da SAV, Secretaria do Audiovisual). E é bom que se saiba que a ação antidemocrática dos cineastas que abandonaram o festival foi orquestrada por Kleber Mendonça Filho, o coronel mão-de-ferro do cinema pernambucano. KMF e seu rebanho - incluindo até mesmo boa parte da crítica cinematográfica - fizeram de tudo para acabar com o festival, promovendo inclusive campanhas difamatórias contra o evento e os filmes selecionados. Mas, para sorte do festival e de todos os que resistiram, tudo foi feito de forma equivocada e burra.

O feitiço virou contra o feiticeiro, como se diz por aí, já que a maioria não aceitou engolir a ditadura ideológica imposta por Kleber Mendonça. O casal Bertini soube gerenciar a crise com profissionalismo, selecionou novos filmes para ocupar a grade deixada pelos desafetos e remarcou a data do Cine-PE. O público, evidentemente indignado, colocou-se ao lado do festival. Nas redes sociais, aumentava a cada dia o número de pessoas interessadas em assistir aos filmes. A abertura do evento ocorreu no último dia 27 de junho. Logo no segundo dia foi exibido "O Jardim das Aflições". O Cinema São Luiz, palco oficial do evento, estava absolutamente lotado. Foi uma das noites mais empolgantes e emocionantes na história do Cine-PE.

A velha (e má) política

Por mais que se queira realizar um evento para exibir arte, os festivais de cinema no Brasil passaram a servir também como importante espaço para discutir políticas do audiovisual. Ocorre que, após mais de uma década tendo a ANCINE (Agência Nacional do Cinema) e praticamente toda a estrutura do audiovisual comandada e aparelhada pela esquerda, promovendo uma verdadeira lavagem cerebral em produtores e diretores, os festivais, por meio dos filmes exibidos, se tornaram igualmente uma tribuna do pensamento antiquado e mesquinho dessa mesma esquerda. E é justamente nos corredores ou no lobby dos hotéis durante os festivais onde se presenciam as mais sórdidas tentativas de conchavos.

Este ano, durante o Cine-PE, registrou-se um episódio dos mais tacanhos e que comprova o deplorável fisiologismo da velha-guarda da esquerda. Debora Ivanov, que neste momento apresenta-se como presidente interina da ANCINE, apareceu de surpresa no Recife. Às escondidas, sem registrar sua viagem como agenda oficial, foi até o hotel que servia de sede para a organização do Cine-PE. Ela havia recebido a informação de que o deputado André Amaral (PMDB-PB), cotado para Ministério da Cultura, marcaria sua presença no evento e chegaria ao hotel a qualquer instante. Sim, ele estaria lá, mas para um encontro previamente agendado com o diretor do festival, Alfredo Bertini. Debora Ivanov manteve-se aguardando ansiosamente a chegada de André Amaral, com a explícita intenção de uma articulação política.

Foram horas de tocaia. Quando André Amaral apareceu, Debora Ivanov não se furtou a bajular o deputado. Chegou a persegui-lo de um lado para o outro, até mesmo quando Amaral tentava entrar no banheiro. Uma situação, se não bizarra, realmente ridícula. Evidente que toda essa excitação da interina Ivanov tinha como objetivo um possível apoio do deputado André Amaral a fim de beneficiá-la e assim conquistar efetivação na presidência da ANCINE - cargo pelo qual sabe-se existir uma disputa entre ela e Sérgio Sá Leitão, recentemente empossado como diretor da agência de cinema. Sá Leitão é o nome mais forte para o cargo de presidente. Fato esse que tem deixado a esquerda absolutamente assustada, temerosa, aflita. Sabe que fatalmente poderá perder inúmeras regalias. Não por acaso, a revista lulo-petista Carta Capital publicou um artigo afirmando que "com Sérgio Sá Leitão na Ancine, o cinema brasileiro está em perigo!" Não é o cinema brasileiro que corre perigo, claro, mas o cinema brasileiro que mantém a ultrapassada agenda político-ideológica do PT, que sobrevive somente por conta dos subsídio das leis do audiovisual e não tem qualquer procupação com formação de público.

O Cine-PE 2017 chegou ao fim de mais uma edição. Que foi histórica e deu ainda mais força ao festival e ao cinema brasileiro. A prova disso é que, mesmo após retaliações, "O Jardim das Aflições" ("o filme que não deveria existir", segundo alguns) saiu vitorioso. Perseguido, boicotado e censurado por cineastas e vários críticos de cinema, o documentário dirigido por Josias Teófilo conquistou os prêmios de melhor longa-metragem do júri oficial e do voto popular.

O futuro do cinema brasileiro ainda é nebuloso, mas felizmente acena para novos caminhos. E que seja o caminho do diálogo e da manutenção da liberdade de expressão, de forma plural e democrática.





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