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27/01/2016 11:22

Artigo - Tonico Pereira e o Oscar que o Brasil ainda não levou

por Marcos Petrucelli


Muita gente curtiu e comentou a sobriedade, a perfeição, a reflexão genial de Tonico Pereira no vídeo que o ator (fingindo que não, mas está lendo) publicou na internet e nele declama algumas sábias palavras contra esse tal de Oscar. Em resumo, Tonico quis dizer que esse prêmio não significa nada, não representa nada e não serve para nada. É o mesmo discurso de sempre na época da premiação da Academia. E um discurso, além de vazio, completamente equivocado.

Começo logo questionando o seguinte: se o Oscar é tão desinteressante, porque raios o Tonico perde seu tempo falando sobre isso? Simples: é conveniente, além de muito mais fácil, desmerecer um prêmio após - e mais uma vez - o Brasil ficar fora da disputa. E refiro-me (porque o Tonico também só deve estar pensando nisso) à categoria de filme estrangeiro. Nosso grande Tonico, sendo um homem das artes e principalmente cidadão brasileiro, tinha o dever de ao menos saudar o também brasileiro Alê Abreu pela indicação de seu belo trabalho na animação O Menino e o Mundo.

Mas Tonico prefere se mostrar irritado com a esperança renovada, a todo ano, para que o Brasil ganhe um Oscar. Afirmo: a irritação não é por causa da esperança que se cria; a irritação é pela frustração de nem ao menos concorrermos. Ainda mais quando tínhamos Que Horas Ela Volta?, um filme que até não poderia ganhar o Oscar, mas tinha todas as qualidades necessárias para uma indicação. Tonico considera que, ao invés de a mídia e parte da classe cinematográfica ficarem apostando no prêmio, seria mais importante concentrar forças em exigir mais distribuição e salas de exibição para nossos filmes. Ou seja, ele está querendo falar de mercado. E ainda critica Hollywood, o tal do Oscar, porque eles não estão nem aí para nós, mas sim apenas para o mercado. Fato: Tonico Pereira é um grande ator e conhece muito bem seu ofício. Mas de mercado ele é praticamente um analfabeto. A classe cinematográfica, sempre com o apoio da mídia, passa o ano inteiro concentrando forças e exigindo melhores condições de distribuição e salas de exibição. Mas, como se trata de Brasil, a cultura é sempre colocada em segundo plano e, para piorar, tudo funciona na velocidade de uma tartaruga. Mas o Oscar, meu caro Tonico, só acontece uma vez por ano.

O prêmio não significa nada, não representa nada e não serve para nada? Então vamos ver: Que Horas Ela Volta? estreou no dia 27/08/2015, em 91 salas de cinema; ocupou o 12º lugar do ranking nacional, tendo sido visto por cerca de 27 mil pessoas. Eis que duas semanas depois, o Ministério da Cultura anuncia que o filme de Anna Muylaert seria o representante do Brasil na disputa pelo tal do Oscar, que não serve para nada. Resultado: Que Horas Ela Volta? teve um aumento de audiência de 86%, passou a ocupar a nona posição do ranking e ultrapassou a marca de 140 mil espectadores. E isso porque o filme da Anna nem chegou a ocupar as listas preliminares da Academia para a disputa dos cinco finalistas. E quanto ao O Menino e o Mundo? A animação estreou, timidamente, em janeiro de 2014. Pouca gente viu o filme nos cinemas. Mas - milagrosamente, porque o Oscar não serve para nada - o filme foi indicado pela Academia, na concorrida categoria de animação, e acabou sendo relançado nos cinemas brasileiros. Segundo informou o FilmeB, a Elo Company (responsável pela vendas internacionais de O Menino e o Mundo) comemorou a indicação como uma espécie de renovação do potencial internacional do longa, que já foi vendido para 90 países. "O valor do filme com o Oscar sobe drasticamente", afirmou Sabrina Nudeliman Wagon, diretora executiva da distribuidora.

Essa euforia é positiva, é salutar e é real. Pode-se atacar a premiação do Oscar por inúmeros motivos,mas jamais porque se trata de algo sem importância, sobretudo para uma mudança radical nos resultados mercadológicos. Seja em qualquer país. O Menino e o Mundo nem ganhou um Oscar... está indicado, mas isso já fez toda a diferença. Ignorar esse fato (e os números) é que é irritante. Eu poderia rebater vários pontos do vídeo de Tonico Pereira, citando resultados positivos pós-indicação e pós-premiação do Oscar para filmes de diversas nacionalidas. Mas não vou! Um "amigo" no Facebook, quando postou o vídeo do Tonico, marcou meu nome dizendo: "Petrucelli, vê se aprende alguma coisa." Claro que eu dei risada. E digo mais: caro Tonico Pereira, vai ler um pouco mais e vê se aprende alguma coisa sobre os efeitos modificadores do Oscar no mercado cinematográfico.





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