Casseta & Planeta - A Taça do Mundo é Nossa (Casseta & Planeta: A Taça do Mundo É Nossa, Brasil, 2003)
por Marcel Nadale
Alega a trupe do Casseta & Planeta que o deputado federal Fernando Gabeira foi convidado para representar a si mesmo em uma pequena sátira de ''O Que é Isso Companheiro?'' no primeiro filme dos humoristas globais, ''A Taça do Mundo é Nossa''. Policiado por colegas de partido, Gabeira recusou a contragosto e torna-se, assim, involuntariamente, o grande exemplo da (única) relevância do longa-metragem.
Como os bobos da corte da Idade Média que possuíam imunidade para tirar sarro da monarquia, os sete integrantes do Casseta & Planeta chegaram ao ápice de uma trajetória de quase trinta anos - os últimos dez na TV Globo: estão em posição de ironizar a ditadura dos anos 1970, o mais negro período de nossa história recente, que eles conheceram muito bem como militantes da esquerda ''humorística''.
É salutar a postura iconoclasta da gangue, que não demonstra medo nem do patrulhamento ideológico de uma opinião pública hoje composta pelos cinquentões ainda traumatizados com os porões do regime; nem da rejeição de seu habitual público adolescente, que sequer estava vivo naquela época para sacar as referências do filme.
Bussunda, Hubert e Hélio de La Peña compõem o trio de anti-heróis, que se encontram ao acaso em um atentado a uma churrascaria e são acusados de terrorismo. Beto Silva e Cláudio Manoel são os militares que tentarão apreendê-los, cada uma à sua maneira: o primeiro é um general de ultradireita; o outro é um palerma comandado pela esposa durona (Marcelo Madureira). Reinaldo e a gostosona Maria Paula interpretam, respectivamente, a mãe e o interesse amoroso do personagem de Bussunda.
Graças a Deus, o roteiro composto a catorze mãos evita o discurso revanchista contra os militares, endeusando os rebeldes que queriam derrubar o governo. Como é de praxe, a turma prefere perder as amizades, mas não a piada, então sobra para todos: os generais são infantilóides que se reúnem com seus brinquedinhos em um bordel; os comunistas são tapados que mal entendem a balela marxista que regurgitam. Como o plano de Bussunda, Hélio e Hubert inclui o roubo da Taça Jules Rimet, rolam necessárias farpas até para a Seleção Canarinho e nossa ''pátria de chuteiras''.
Infelizmente, porém, a passagem dos globais para o cinema não ocorre tão suavemente quanto, por exemplo, ''Os Normais''. E o motivo é óbvio: a verdadeira ousadia de ''A Taça do Mundo é Nossa'' não está no tema, mas na estrutura, que rejeita os esquetes curtos da TV por uma evolução narrativa com começo, meio e fim. Só que os Cassetas ainda não demonstram fôlego para sustentar os mesmos personagens por uma hora e meia - e o resultado tampouco seria diferente se os protagonistas fossem favoritos da telinha, como Seu Creysson ou os policiais Fucker & Sucker. A criação caricatural de tipos é o humor mais jurássico que se faz na TV brasileira hoje e uma exceção em um programa que se notabilizou, na verdade, por abusar de um panteão muito mais interessante de figuras exóticas: os da nossa política corrupta e da nossa sociedade desigual. Com suas entrevistas malandras que levavam a piada às ruas, o programa se tornava um palanque em que o já naturalmente bem-humorado brasileiro tinha a chance de virar a mesa contra os abusos que sofria no dia a dia.
Ainda que não caibam no cinema, são estes elementos que fazem falta, e muito, à ''A Taça do Mundo é Nossa''. Não é a mesma coisa quando o discurso dessa subversão é tirado da boca do povo e levado às dos hoje milionários Cassetas. Lá pelas tantas, os bordões repetidos à exaustão por cada um dos sete começam a aproximar o filme mais ao humor esclerosado e chato do ''Zorra Total'' do que à irreverência do ''Casseta & Planeta Urgente''. O que resta portanto, são menos os personagens marcantes do que as situações bem armadas (e nem sempre exploradas), como o genial corretor imobiliário de aparelhos, o Che Guevara sobrevivendo de royalties e o último petardo nos créditos finais.
Ainda que ''Os Normais'' seja bem mais divertido e faça valer melhor o preço do ingresso, cabe a ressalva: os Cassetas são inegavelmente talentosos e estão só se acostumando ao cinema. Se o segundo filme, prometido para 2005, de fato for concretizado, com certeza será uma comédia ainda mais refinada e inteligente. Esses caras têm tudo para dominar o país de um jeito que nem mesmo os militares ou os comunistas da década de 1970 um dia sonharam.