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A Invenção de Hugo Cabret
(Hugo, EUA, 2011)


por Eliane Lordello, especial para o e-Pipoca

Dono de uma monumental carreira cinematográfica, como ator, produtor e diretor, Martin Scorsese é um ítalo-americano nascido no Queens, morador da cidade de Nova York. Fiel a essa origem, fez despontar sob a sua direção temas como boxe, máfias, gangsters, cinebiografias de controversas personalidades americanas e filmes de época.

Em "O Touro Indomável", concilia a biografia do intempestivo pugilista Jake LaMotta e a violência do esporte com cenas que o tratam como uma verdadeira coreografia. Em "Cassino", moderníssimo desde o seu lançamento até a atualidade, mergulha fundo nos intrincados vieses da máfia e dos gangsters. Em "A Época da Inocência", sem jamais perder de vista a beleza dos espaços urbanos nova-iorquinos de um incipiente século 20, critica, com agudeza, as relações pessoais na cidade. Em "O Último Concerto de Rock", hoje lendário, e no recente "Rolling Stones - Shine a Light" documenta turnês e shows de rock, transmitindo aos filmes a energia inerente a esse estilo musical.

Provando que nem só de temas caros ao seu "hábitat natural" se faz o seu repertório, Scorsese, que já foi padre, discute os cânones religiosos no polêmico "A Última Tentação de Cristo", e perscruta o budismo indiano no lindíssimo "Kundun".

Ex-professor do curso de Cinema da New York University, onde teve, entre seus alunos, os diretores Oliver Stone e Spike Lee, Scorsese é um erudito da sétima arte. É também um "viciado em cinema", como foi definido, certa vez, quando homenageado em uma cerimônia do Oscar. Um dos criadores da The Film Foundation, fundação que preserva e restaura filmes, Scorsese é um apaixonado memorialista do cinema. É precisamente essa sua faceta que desponta com força maior em "A Invenção de Hugo Cabret".

Adaptado do aclamado livro homônimo escrito por Brian Selznick - sobrinho-neto do produtor e roteirista David O. Selznick -, o filme se passa nos anos 1930, narrando a história do menino Hugo, orfão de mãe, criado pelo pai, que lhe ensina o ofício de relojoeiro e o trato com mecanismos movidos a corda. Com a companhia paterna, Hugo compartilhava a tentativa de fazer funcionar um autômato. Perdendo precocemente também o pai, o menino passa a viver na torre do relógio da Estação Central de Trens, levado por um tio beberrão, encarregado de manter todos os relógios do local. Em pouco tempo, esse tio desaparece, deixando o menino a cargo de sua própria sobrevivência.

Responsável por si mesmo, Hugo passa seus dias mantendo os relógios da estação funcionando pontualmente, por dever de ofício e pela necessidade de preservar incógnita sua permanência na torre. Fora dela e dos relógios pendentes, o seu cotidiano é uma peripécia. Para a sua única refeição diária, rouba o pão e o leite da cafeteria. O seu trânsito nas plataformas e corredores da estação é uma eterna fuga do empedernido inspetor local, para quem a remessa de crianças ao orfanato é uma medida profilática.

Hugo sobrevive a tudo isso pelo desejo de dar vida a outro ser, o autômato, no qual encontra a preservação do vínculo com seu pai. Movido por esse intento, o menino furta pequenas peças de uma loja de brinquedos e artigos de mágica. Flagrado no ato pelo proprietário, mas compreendido pela menina por ele criada, Isabelle, Hugo passará justamente a trabalhar nessa loja, visando apenas concluir o autômato. Nem sequer supunha o menino, ao aceitar o emprego, que nele encontraria o crucial ponto de inflexão de sua biografia. Tampouco sabia Hugo que o proprietário dessa loja fosse um importantíssimo personagem da fase do nascimento do cinema (1895-1919): o mecânico, inventor, mago e caricaturista Georges Méliès (1861-1938).

No encontro de Hugo com Isabelle, Méliès, e Jeanne (sua mulher, musa e protagonista de seus filmes), tem início uma sincera declaração de amor ao cinema. Ela começa pelo resgate da primeira apresentação pública do Cinematógrafo dos irmãos Lumière, em 1895, em Paris, estando Méliès na plateia. Encantado com o que ali vira e com a máquina que o propiciara, Méliès entrega-se a essa arte. Em 1897, constrói seu estúdio próximo a Paris, no qual produz mais de 500 filmes, entre eles, "Viagem à Lua", uma adaptação da obra de Jules Verne.

Ocupando-se do cinema desde o mecanismo do cinematógrafo, Méliès escreve, desenha e dirige seus próprios filmes, nos quais também atua. Mais de uma centena deles ainda existe na atualidade. Nós, na plateia, assistimos com Hugo e Isabelle a alguns desses filmes, em uma generosidade para com os cinéfilos que jamais tiveram a chance de ver as obras de Méliès no cinema. Além deles, outros grandes clássicos dos primórdios da sétima arte são mostrados durante o filme, entre os quais destaca-se "Intolerância", obra monumental dirigida por D.W. Griffith (1875-1948).

Literatura, desenho, cenografia, música, dança, circo, criações artísticas historicamente ligadas à sétima arte são também contempladas na trajetória do cinema contada por Scorsese ao sabor da curiosidade de Hugo e Isabelle, crianças nos anos 1930. A Paris onde eles vivem nos é descortinada em tons majoritariamente dourados, os mesmos das rodas dentadas e engrenagens das quais Hugo se ocupa com os relógios. Igualmente os representam os anéis viários da cidade, velozmente circulados pela ágil câmera de Scorsese, em espetaculares planos aéreos. A essa visão funcionalista da cidade, alia-se a concepção que tem Hugo, para quem a toda máquina corresponde uma destinação. O seu pleno cumprimento é sua razão de ser, pelo que, o menino se encarrega de consertá-las e mantê-las.

Tudo somado, engrenagens, relógios, trens, e cidade parecem querer nos lembrar que o tempo corre rápido demais e que o esquecimento é um risco iminente. Assim sendo, retomando a concepção de Hugo, nós mesmos não devemos perder de vista a nossa própria razão de ser.

Também na comunicação desse recado, flagra-se a consciência memorialística de Scorsese, ressaltando que o cinema é um recurso da memória.
Para que a profundidade de seus fundamentos seja perfeitamente repassada, o filme conta com um excelente roteiro adaptado, cuja mais perfeita definição é dada em uma fala de Isabelle: "É uma longa história, cheia de circunlóquios".

Até conhecer Isabelle, a única companhia de Hugo era o autômato. Apaixonada por literatura, a menina é o contraponto perfeito para a visão funcionalista de Hugo e parceira ideal para seu fascínio pelo cinema, arte projetada por uma máquina. Esse pequeno par rouba todas as cenas entre adultos, embora todo o elenco seja muito bom.

Hugo é vivido por Asa Butterfield, que emocionou o mundo em "O Menino do Pijama Listrado". Isabelle é interpretada Chloe Moretz, que, entre seus papéis, é lembrada pela controvertida heroína mirim de "Kick-Ass - Quebrando Tudo". Juntas, as duas crianças fazem da história de Hugo uma lição de vida, nos lembrando de que quem tem um motivo verdadeiro e autêntico traz em si o poder de superar as adversidades. Concedendo aos dois personagens o devido relevo, o filme de Scorsese nos mostra quantas maravilhas se pode produzir a partir dessa lição, da qual a obra de Méliès é mais uma prova.



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