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ERA UMA VEZ...

(Era Uma Vez..., Brasil, 2008)

Apresentação

Depois do sucesso de "2 Filhos de Francisco", maior bilheteria do cinema nacional nos últimos 30 anos, com 5,3 milhões espectadores, o diretor Breno Silveira lança "Era Uma Vez...", co-produção da Conspiração Filmes, Globo Filmes e Sony Pictures. O longa-metragem conta a história de amor entre dois jovens de classes sociais diferentes que moram no mesmo bairro – um no asfalto, outro na favela – do Rio de Janeiro, cidade que abriga contrastes sociais em uma harmonia velada. É neste lugar, emoldurado por praias, montanhas e florestas, que se desenrola o encontro entre dois mundos, na interseção da favela do Cantagalo com a rica Avenida Vieira Souto, em Ipanema, na Zona Sul do Rio.

Com a proximidade geográfica, e apesar de viverem em universos tão distantes, os jovens Dé e Nina se apaixonam. Um sentimento sincero que vai interferir na vida de todos que estão a sua volta, e que acaba por revelar os preconceitos que existem dos dois lados deste confronto social: tanto do morro como do asfalto. Com esse romance, o filme traz à tona a intolerância de uma sociedade que rejeita as diferenças que ela própria criou.

Com direção de fotografia de Dudu Miranda e Paulo Souza, e direção de arte de Rafael Ronconi, o longa-metragem repete a parceria vitoriosa de Breno Silveira com a roteirista Patrícia Andrade ("2 Filhos de Francisco"). A maquiagem ficou a cargo de Martin Trujillo. O figurino, de Claudia Kopke. A trilha sonora e a direção musical são de Berna Ceppas, com participação especial de Marisa Monte. A trilha conta ainda com gravações originais de artistas como Luiz Melodia, Mart’nália e Martinho da Vila e com a colaboração de músicos como Jacques Morelenbaum.

No elenco desponta o ator Thiago Martins no papel de Dé, e da jovem Vitória Frate, em sua estréia no cinema, como Nina. Ator formado na oficina Nós do Morro, na favela do Vidigal, Thiago foi escolhido para o papel graças a sua determinação. Mesmo sabendo que o diretor procurava um rosto novo, continuou participando dos testes de elenco: "Sabia que o Dé tinha que ser eu. A história dele é muito parecida com a minha. Eu também já vivi várias situações que o personagem enfrenta", diz o ator. Outros destaques do elenco são Rocco Pitanga e Cyria Coentro. O filme tem ainda a participação especial de Paulo César Grande, como pai de Nina.

"Era Uma Vez..." foi parcialmente financiado com recursos obtidos através da Lei Federal 8.685/93 (Lei do Audiovisual Art. 1º, 1ºA e 3º), bem como do Prêmio Adicional de Renda 2006 e do Edital de Finalização da Ancine 2007. O Patrocinador principal da Obra é o Ibi, e o co-patrocinador é o BNDES.


A História
"Era Uma Vez..." conta a história de amor entre dois jovens que vivem realidades bem distintas. Morador da favela do Cantagalo, em Ipanema, na Zona Sul, Dé descobriu cedo as dificuldades de vencer na vida de forma honesta, cercado pelas armadilhas do crime. Filho da empregada doméstica Bernadete, e abandonado pelo pai, ele assistiu a um traficante matar seu irmão Beto. Em seguida, seu irmão mais velho, Carlão, é obrigado pelos bandidos a se exilar da favela e acaba preso ao ser confundido com marginais em meio a um arrastão na praia. Apesar de tantos contratempos, Dé mantém sua dignidade. Trabalhador, vende cachorro-quente num quiosque na praia. É dali, de trás do balcão, que observa Nina, filha única de uma família rica que mora na Vieira Souto, avenida em frente à Praia de Ipanema.

Os dois se conhecem na praia e acabam se apaixonando. Juntos, experimentam as alegrias, emoções e dificuldades de viver um amor tão grande quanto improvável. Porém, são alvo de críticas e preconceitos velados. Dé e Nina são o retrato da intolerância e dos abismos sociais que separam brasileiros não apenas no Rio, mas em cidades de todo o país e do mundo.


Sobre o roteiro
"Era Uma Vez..." nasceu das experiências do diretor Breno Silveira durante filmagens em comunidades carentes do Rio, como em "Santa Marta - Duas Semanas no Morro", de Eduardo Coutinho. Depois de ler o livro "Cidade de Deus", Breno teve a certeza de que queria fazer um longa-metragem que abordasse os problemas sociais do Rio tendo como ponto de partida a história de um morador da favela. Ele convidou o escritor Paulo Lins para desenvolver o roteiro, mas acabou deixando o projeto de lado para se dedicar ao filme "2 Filhos de Francisco". "Após '2 Filhos', percebi que gostava de falar de amor e de emocionar as pessoas, só que o roteiro de "Era Uma Vez..." que estava pronto era muito violento. Decidi que ele tinha de ser reescrito de uma maneira mais delicada e humana', conta o diretor. Para essa tarefa, chamou Patrícia Andrade, que, com Carolina Kotscho, escrevera a história sobre Zezé di Camargo e Luciano.

A idéia de Breno Silveira era mostrar as relações humanas existentes em dois mundos diferentes e como elas interagem entre si. Por isso, o filme aborda, além do envolvimento entre dois jovens de classes sociais distintas, o relacionamento entre irmãos, entre uma mãe e seus filhos e entre um pai viúvo e sua filha. Um dos desafios era fazer com que todos os personagens, de certa forma, tivessem razão – mostrando assim os pontos de vista de quem está no asfalto e na favela. "Queria um filme em que todos estivessem, ao mesmo tempo, certos e errados, em que vilão e mocinho trocassem de posição até o final. Dessa forma, seria possível contar a história com imparcialidade", afirma o diretor.

O roteiro passou por diversos tratamentos, principalmente depois que Patrícia Andrade começou a freqüentar o Morro do Cantagalo com a intenção de conhecer aquela realidade e deixar a história mais realista possível. "Um dos personagens que mais cresceram com o meu contato com a favela foi a Bernadete. Entrevistei muitas mães e fiquei impressionada porque todas tinham uma tragédia pessoal para contar. Fiquei emocionada quando vi algumas moradoras chorarem numa das filmagens na favela dizendo que era daquele jeito que as coisas aconteciam", diz a roteirista.


Sobre a escolha do elenco
Como em "2 Filhos de Francisco", em "Era Uma Vez..." o diretor Breno Silveira optou por escalar atores menos conhecidos do grande público para viver os papéis principais. Para o papel de Dé, ele escolheu o jovem ator Thiago Martins, que precisou fazer quatro testes durante um ano e meio até convencer o diretor de que era a pessoa certa. "Queria alguém que não tivesse o estereótipo de herói-galã, o que não era o caso do Thiago. Mas ele se deixou ficar feio e, apesar de ser reprovado várias vezes, sempre voltava aos testes. E voltava melhor", conta o diretor.

Além disso, Thiago conquistou Breno Silveira ao mostrar a ele que a sua vida tinha diversos pontos em comum com a do personagem Dé. "Quando eu li o roteiro pela primeira vez, eu disse ao Breno que o Dé era eu. Já presenciei coisas que o Dé presenciou. Já tive as mesmas dificuldades e problemas que ele teve. Sou morador de morro e sou trabalhador. Eu sou essa pessoa", conta Thiago. "Tento sempre descobrir nos atores se eles têm a alma do personagem e o que eles possuem neles mesmos que pode se agregar ao papel", diz Breno.

A busca por identidade estreita entre ator e personagem também pautou o diretor na escolha da atriz que viveria Nina e do ator que interpretaria o pai dela, o advogado Evandro. Além de ser uma jovem criada na Zona Sul do Rio, Vitória Frate mostrou ter a cabeça aberta e sem preconceitos como a jovem Nina. "Ela não tinha ainda muita experiência artística, mas decidi apostar no seu talento", afirma Breno Silveira. Já em Paulo César Grande, o diretor percebeu o mesmo comportamento impulsivo e honesto de Evandro, "um pai que põe o coração acima de tudo".

Para o papel de Carlão, Breno queria um ator que conseguisse transmitir bondade, raiva e revolta ao mesmo tempo. "Esse personagem tem uma virada muito grande na vida e essa mudança foi muito bem construída pelo Rocco (Pitanga)", elogia Breno, também exultante com a performance de Cyria Coentro no papel de Bernadete, a mãe de Dé. "A Cyria conseguiu fazer uma mãe seca, que achava que aquela relação amorosa não iria dar certo. O contato dela e dos outros atores com pessoas da favela foi fundamental para a composição dos personagens", finaliza o diretor.


Sobre as filmagens e a produção
Realizadas nos meses de maio e junho de 2007, no Rio de Janeiro, as filmagens de "Era Uma Vez..." foram um desafio para a equipe técnica por terem sido feitas integralmente em locação. A primeira grande decisão do diretor Breno Silveira foi decidir que o filme seria rodado no próprio Morro do Cantagalo, em Ipanema, ou em outro lugar que apresentasse melhores condições para a montagem do set.

Para que as filmagens acontecessem sem transtornos, quatro meses antes de elas começarem, Breno e os produtores saíram a campo. O produtor executivo Luiz Noronha ficou encarregado de fazer contato com o poder público do estado e do município, avisando que uma equipe da Conspiração Filmes estaria no Cantagalo realizando o longa-metragem. Na favela, por sua vez, o produtor delegado Marcos França e o diretor passaram a visitar líderes comunitários, explicando a história do longametragem na tentativa de envolver os moradores.

Em seguida, Breno partiu para procurar os lugares onde as cenas poderiam ser realizadas. O mais difícil foi encontrar o local certo para a casa da família de Dé. Os barracos existentes eram muito pequenos e, por isso, seria necessário construir uma nova casa. No entanto, devido ao crescimento da favela, quase não existiam espaços disponíveis com vista para a Praia de Ipanema, como Breno desejava e o roteiro pedia. Ele conseguiu, enfim, achar um lugar onde as lajes de três barracos estavam no mesmo nível de altura. Elas foram unidas e, por cima, construiu-se o barraco cenográfico.

A participação dos moradores do Cantagalo foi intensa e grande parte da mão-de-obra utilizada veio da comunidade. A colaboração não parou por aí. Uns dos núcleos de produção que mais se beneficiaram foram a direção de arte e o figurino. Os móveis usados para a composição do barraco de Dé e de outras locações na favela eram de moradores do morro. O diretor de arte Rafael Ronconi foi recebido em várias casas, onde fotografava os móveis durante o processo de pesquisa. "Trabalhamos sempre com o conceito de oposição. Na favela, tínhamos uma anarquia de cores, e nesse sentido a ajuda dos moradores com os seus próprios objetos foi fundamental para dar mais veracidade. Já no apartamento do Evandro, trabalhamos muito com o branco e o preto para deixá-lo mais sóbrio. No quarto da Nina, colocamos um pouco de cor exatamente para mostrar que ela representava a aproximação entre os dois mundos", diz Rafael.

Já a figurinista Claudia Kopke contou diretamente com a ajuda de três jovens moradoras do Cantagalo, que puderam fazer uma espécie de estágio numa nova atividade. Foi promovido um grande bazar em que as pessoas levavam roupas e acessórios que pudessem ser usados tanto na caracterização para as cenas que se passam em 1997 quanto para as de 2007. "Nossa preocupação era montar um figurino sem a aparência de que foi produzido em loja", afirma Cláudia.

De todos os personagens do filme, Claudia diz que o figurino mais difícil foi o do Carlão, devido as três diferentes fases que o irmão de Dé vive. O maquiador Martín Macías Trujillo concorda. "Além da passagem de tempo de dez anos, na primeira fase queríamos transmitir uma sensação de bondade. Por isso, ele tinha sempre uma pele saudável e andava bem penteado. Já na segunda e na terceira fases do personagem, o objetivo era mostrar o sofrimento e a raiva. O Carlão passou a usar um cabelo mal tratado, a ter o olhar avermelhado, olheiras, barba por fazer, costeleta mais comprida, cavanhaque e unhas sujas e longas. Dei um mau trato nos dentes e deixei a pele sempre com a sensação oleosa e suada", conta.

A dupla de diretores de fotografia também teve de encontrar soluções criativas nas filmagens no Morro do Cantagalo. "Ficamos alguns dias na favela para ver como era a noite de lá e decidimos usar lâmpadas comuns de vapor metálico e vapor de sódio. Quase não usamos refletores de cinema. Tudo para deixar a luz o mais próximo da realidade", explica Paulo Souza. "Trabalhamos na inclinação das lajes, mas nem sempre as construções eram muito consistentes para a montagem de equipamentos. Realmente não é um lugar ideal para se armar um set de filmagem, mas as dificuldades sempre foram vencidas com a boa vontade dos moradores. Dentro dessa estrutura difícil, foi muito bom ter dois fotógrafos. Fizemos duas frentes de trabalho e o serviço ficava adiantado", lembra Dudu Miranda.

Na Avenida Vieira Souto, em Ipanema, foi preciso produzir o quiosque que ficaria em frente ao apartamento alugado. O diretor de arte Rafael Ronconi conseguiu um quiosque num depósito da Prefeitura do Rio, e ele teve que ser transportado numa carreta até a orla. Para não atrapalhar a circulação de pessoas e reduzir a influência dos barulhos dos automóveis, um novo calçadão foi construído e a estrutura, montada de maneira recuada na areia. "Ele ficou tão parecido com o real que muitas pessoas paravam ali para pedir uma água de coco", diverte-se Breno Silveira.


Sobre a Trilha Sonora
A inspiração para a trilha sonora de "Era Uma Vez..." nasceu da trajetória do personagem Dé, o protagonista do filme. Surgiu, então, a idéia de compor e escolher canções em primeira pessoa, tornando-as mais intimistas. "O fio condutor da trilha original era passar ao espectador o que estava na cabeça do Dé, e não deixar a música como algo apenas decorativo", revela o produtor Berna Ceppas, autor da trilha original do longa-metragem.

Foram escolhidos também temas musicais para as diferentes situações vividas pelos personagens. Para isso, a contribuição da cantora Marisa Monte foi fundamental. Foi dela a sugestão da inédita "Minha Rainha", de Manacea, compositor da Velha Guarda da Portela, que foi retirada dos arquivos da pesquisa de Marisa sobre samba. A canção se encaixou perfeitamente na história do filme ao falar do sentimento de um homem por uma mulher que, no início, é um pouco frustrante para ele, mas vai se transformando ao longo da música. A interpretação ficou a cargo de Luiz Melodia. Marisa Monte gravou especialmente para o longa-metragem a música "Uma Palavra", composição inédita da cantora em parceria com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown.

Outra artista convidada para gravar uma música para a trilha foi Mart'nália. Ela canta "Vide Gal", de Carlinhos Brown, que é usada na abertura do filme. "É uma ótima música sobre o Rio, feita por um baiano. A gente queria uma voz emblemática que fosse a cara da cidade. Mart'nália esculachou, estrondou, deu muita personalidade", conta Berna. Tanto Luiz Melodia quanto Mart'nália estiveram acompanhados de um time de músicos formado por Wilson das Neves, Mauro Diniz, Felipe Pinaud, Ouvídio Brito, Nando Duarte (violão de sete cordas em "Minha Rainha") e Guga Stroeter (vibrafone em "Minha Rainha").

Outra canção escolhida foi a música "Fico Assim Sem Você", cantada por Claudinho e Buchecha, que embala o momento romântico de Dé e Nina no baile funk. O produtor Berna Ceppas teve ainda o auxílio do DJ Sany Pitbull, principal DJ do Morro do Cantagalo há quatro anos, na elaboração dos funks da trilha.