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A BRIGADA DO MAL

(The Devil's Brigade, EUA, 1968)




 Carlos Wellington Leite de Almeida em 05/01/2010
“A brigada do mal” (The devil’s brigade) é um filme ambientado na Europa da II Guerra Mundial. Foi produzido pela Wolper Pics., em 1968, a mesma produtora de “A ponte de Remagen” (1969), sob a direção de Andrew V. Mclaglen (Shenandoah, 1965; Jamais foram vencidos, 1969). Embora seja uma obra de ficção, é baseada na história verídica da primeira força combinada de operações especiais dos Aliados, durante a II Guerra Mundial, composta de soldados norteamericanos e canadenses. Seu elenco conta com William Holden, Cliff Robertson, Vince Edwards, Jeremy Slate e Patrick Knowles. A 1ª Força de Serviço Especial, em inglês 1st Special Service Force (SSF), ficou conhecida entre os alemães como “A brigada do Diabo”, ou, em inglês, The Devil’s Brigade, ou, ainda, The Black Devil’s Brigade. Era uma unidade do tipo “comando” que viu ação na Itália, no sul da França e nas Ilhas Aleútas, sendo desmobilizada em dezembro de 1944. Inicialmente, deveria haver sido usada na Noruega, na chamada “Operação Arado” (do inglês, “Project Plough”), que envolveria infiltração aérea por paraquedistas e alvos de natureza estratégica, como usinas hidrelétricas, o que não chegou a ocorrer. A SSF constitui-se na origem de diversas forças especiais dos Estados Unidos e do Canadá. “A brigada do mal”, volta-se a enfatizar, uma ficção baseada em uma história real, trata da transformação de soldados “renegados” em tropa de elite. Os soldados norteamericanos que compõem a brigada, sob a direção direta do Major Cliff Bricker (Vince Edwards), são do pior tipo, em geral, vindo das prisões militares do Exército dos Estados Unidos. Os canadenses, por sua vez, liderados pelo Major Alan Crown (Cliff Robertson), são soldados disciplinados e experientes, mas, na verdade, marcados pela derrota em Dunquerque e pela perda da França para os alemães, nos anos iniciais da II Guerra Mundial. São esses “cacos de soldados”, hostis entre si e nada dispostos a cooperar, que o Tenente-Coronel Robert T. Frederick (William Holden) deverá juntar e transformar em uma valorosa unidade de elite. O filme retrata muito bem os aspectos da motivação e da liderança, virtudes necessárias não somente ao mundo militar, mas ao desempenho de qualquer atividade coletiva que requeira o atingimento de objetivos desafiadores. A superação dos conflitos entre os grupos estadunidense e canadense é, na verdade, o maior desafio do Tenente-Coronel Frederick (William Holden). Os soldados, inicialmente desacreditados, mudam radicalmente e se tornam valiosos “comandos”, ansiosos por lutar. Frustrados por não serem levados ao combate na Noruega, como havia sido planejado, têm a oportunidade de entrar em ação na Itália, por sugestão do comandante americano naquele teatro de operações, General Mark Clark. A ação bem sucedida da unidade em Monte La Difensa é mostrada no filme. Algumas cenas são muito marcantes e inesquecíveis para os fãs do gênero. Uma delas, sem dúvida, é a da chegada da tropa canadense, com o Major Alan Crown (Cliff Robertson) à frente, devidamente “coberta e alinhada”, marchando com cadência firme e de espírito altivo, de maneira a contrastar com o jeito nada apresentável dos soldados americanos. Também, os cinéfilos são se esquecerão da conversa inicial entre o Tenente-Coronel Frederick (William Holden) e o Major Alan Crown, na qual o comandante americano procura “baixar a bola” dos empedernidos canadenses, deixando claro que a experiência da derrota em Dunquerque nenhum valor possui. Finalmente, quem não lembra da cena da chegada do Sargento Patrick O’neil (Jeremy Slate), o instrutor de defesa pessoal e luta “corpo a corpo” da nova tropa mista? Certamente, um dos pontos marcantes da produção. Uma cena curta, mas de grande significação para a ambientação histórica, é a em que o Almirante Mountbatten (Patrick Knowles), aparentemente, trata com desprezo o Tenente-Coronel Frederick (William Holden), tudo, na verdade, constituindo-se no heterodoxo processo de seleção de pessoal adotado pelo famoso almirante. Lord Louis Mountbatten foi uma das mais importantes lideranças militares dos Aliados durante a II Guerra Mundial. Chefe das Operações Combinadas, foi o grande impulsor da criação de tropas especialmente treinadas para missões de grande dificuldade. Na política foi o último Vice-Rei da Índia, e, na carreira naval chegou ao cobiçado posto de First Sea Lord (Primeiro Lorde do Mar). Membro da família real, era primo do Rei George VI, pai da atual Rainha Elizabeth II e muito influenciou a educação do herdeiro Charles, o Príncipe de Gales, que o teve como grande mentor. Embora a aparição de Lord Mountbatten em “A brigada do mal” seja rapidíssima, a importância histórica do personagem fez com que sua personificação coubesse a um ator do naipe de Patrick Knowles (“A carga da brigada ligeira”, 1935). William Holden, no papel do Tenente-Coronel Frederick, está interpretando um dos seus bons papéis no cinema. O ator americano, natural do Estado de Illinois, nasceu em 1918, chamado William Franklin Beedle Jr. Foi um dos atros mais populares do cinema estadunidense, havendo sido, nos anos 1950, posicionado seis vezes consecutivas entre os “Top 10 stars”. Era considerado o “garoto de ouro” de Hollywood, em clara alusão à sua participação em “Golden Boy” (1939), por sua versatilidade e pela qualidade de suas interpretações. Entre os filmes mais conhecidos nos quais atuou destacam-se “Stalag 17” (1953), que lhe valeu o Oscar de Melhor Ator, o clássico “Sabrina” (1954), “As pontes de Toko-Ri” (1955) e “Marcha de Heróis” (1959). Nunca envolveu-se pessoalmente na política, mas teve atuação na preservação ambiental na África, ainda nos primórdios desse tipo de preocupação social. O mais próximo que chegou do mundo do poder consistiu no fato de haver sido, em 1952, padrinho de casamento de Ronald Reagan, futuro presidente dos Estados Unidos, e Nancy. Foi casado com a atriz Brenda Marshall (“O gavião do mar”, 1940) por trinta anos, em uma tumultuada relação que envolveu diversas separações e reconciliações. Em 1974, três anos após o divórcio definitivo de Brenda Marshall, começou um relacionamento amoroso com a atriz Stephanie Powers, a Jennifer Hart de “Casal 20”, também interessada em temas ambientais, a qual chegou a ser presidente da Fundação William Holden para preservação animal. Importante crítica ao filme vem do respeitado Rubens Ewald Filho. No Especial UOL para o cinema, destaca que a tradução do título “A brigada do mal” não faz jus ao título em inglês, chegando a deturpar o seu sentido. Melhor tradução, aponta, teria sido “A brigada do Diabo”. Destaca, ainda, ser difícil aceitar a mudança de um grupo de desordeiros para uma tropa de elite. Por fim, remete-se ao local de filmagens, pois a paisagem do Estado americano de Utah, onde foram rodadas as cenas, em nada se parece com o sul da Itália, que pretende representar. Não se desmerece, entretanto, o filme em si. Uma produção equilibrada, temperada por momentos de heroísmo e outros de bom humor. Um filme que vale a pena por sua retratação dos valores da liderança e da camaradagem. Mais um daqueles que os amantes dos filmes de guerra não podem perder.